ARTIGO: Ansiedade em tempos de pandemia da COVID-19, o novo coronavírus

                                                                                                                   Oneli de Fátima Teixeira Gonçalves  

É o momento em que todos, querendo ou não, têm que enfrentar as vulnerabilidades que já existem, mas que, até então, não se tinha tido “tempo” de encará-las. Além dos conflitos derivados de nossas relações com os outros e com a gente mesmo, também aparecem sintomas que já existiam, mas só se apresentavam frente a situações limitantes ou mesmo de dificuldades. O momento da pandemia da COVID -19, do novo coronavírus, chega para promover no sujeito o dar-se conta de si mesmo. Com isso, a ansiedade assume um lugar de destaque.
O substantivo ansiedade vem de ânsia que significa expectativa. Assim como se nomeia saudade para um tipo de desejo, ansiedade é outro nome atribuído ao desejo. Desejo daquilo que se fazia e agora não se pode mais, desejo por aquela pessoa que se foi pela letalidade do vírus e não está mais aqui, desejo por momentos que não se sabe quando voltarão e outros desejos. O que pouco se sabe é que desde de 1890 a ansiedade já era uma preocupação para os cientistas. O médico americano Beard considerou a ansiedade uma síndrome da vida moderna. Para o Neurologista, a nova doença estaria ligada a duas condições básicas: a saída do homem do campo para viver na cidade e trabalhar em grandes fábricas, e a relação com o tempo no trabalho que passa a ser regulado pelas demandas das empresas a fim de responder a uma nova ordem de demanda mundial. Aquela nova ordem expressa há séculos, hoje ilustra e fornece subsídios para a compreensão e leitura quanto ao sofrimento e o adoecimento psíquico que se apresenta em decorrência do momento singular de pandemia da COVID-19. A procura recorrente dos Serviços Psicológicos Especializados oferecidos pela rede pública do estado, em particular, pela Universidade do Estado do Pará, só comprova a importância da ação implementada. Por meio do trabalho de escuta em serviço é possível constatar a presença de diferentes manifestações de estados de ansiedade. É um sofrimento que ativa no sujeito importantes quadros de adoecimento psíquico que têm como gatilho a eminência de morte produzida por um vírus de importante letalidade.
A escuta psicológica, ao favorecer uma atitude de acolhimento e de aceitação, produz no sujeito o reconhecimento de que o tempo do outro, o tempo do mundo se impõe ao momento vivido. Quando essa equação é posta em xeque, os estados de ansiedade tornam-se uma síndrome transversal, universal e recorrente. Dito isso, a ansiedade está relacionada com as formas pessoais de produção que cada sujeito adota, seja consciente ou inconscientemente, ou mesmo a medida assumida por cada um quanto à produtividade e o entendimento quanto ao conceito de eficácia de produção assumido pelo sujeito. E o desejo? O que tem a ver com isso? Aprende-se que o desejo bom é aquele que produz movimento, que possibilita o engajamento, que promove agilidade. Aqui vale uma reflexão: o que significa o desejo para cada um de nós na relação trabalho versus produção? Como lidar com as vicissitudes frente às impossibilidades – natural do humano – quanto à realização desses desejos?
Num tempo mais próximo do presente, por volta dos anos 2000, surge um fator que concorrerá, significativamente, para a generalização da cultura da ansiedade. Nasce uma nova forma de linguagem que se institui e passa a mediar a relação entre pessoas: a linguagem digital. A comunicação humana passa a adquirir uma instantaneidade. Estar conectado num maior tempo possível e ter o maior número de acesso ao mundo digital passa a ser a nova ordem. Dinâmica que ganha a condição e o lugar de terceiro fator determinante, apontado pelas pesquisas no campo da saúde mental, como indicador de síndromes de ansiedade. Surge como primeira e mais popular dentre as patologias psicológicas do mundo moderno.
Há dois grandes grupos dentro do quadro da ansiedade: aquelas que assumem a dimensão de uma necessidade imediata, como se o sujeito precisasse consumir tudo de uma vez só, que podem levar, por exemplo, à síndrome do pânico. Ocorre uma espécie de pani de todos os órgãos. A pessoa pensa que vai morrer, tem a sensação de que não é mais ela, que se transformou em outra pessoa ou que está enlouquecendo. Tem sensações de vertigens, falta de ar, transtornos gastrointestinais, apresenta um medo intenso, transpira significativamente, sente uma espécie de colapso existencial, passa a adquirir uma consistência corporal que tende a desaparecer em função da sensação de caos total.
O outro grande grupo de ansiedade está ligada à cronicidade e à acumulação. São pessoas cujo estado de ansiedade faz parte do seu dia-a-dia. É comum atribuem a presença da ansiedade a algo relacionado à realidade. Significa que a resolução do problema, ou o atendimento da demanda, responde ao que está sendo solicitado e “trata” a ansiedade, ao mesmo tempo. Qual o efeito psicológico dessa conduta? O sujeito acredita que está resolvendo a ansiedade, todavia passa a assumir uma atitude acelerada diante do mundo e dos outros. Ao fugir para a realidade, transforma todos os problemas em problemas de realidade, exatamente como fora descrito por Freud . Pensa todas as questões sempre relacionadas às imperfeições do mundo. O sujeito foge para a fantasia, para os seus devaneios, para o passado ou para um futuro idealizado. Foge para uma série de condições que, no fundo, escapam ao presente.
Há, portanto, dois paradigmas que envolvem a ansiedade: em um, o sujeito está capturado no presente; em outro não consegue viver o momento atual. A ansiedade pode se apresentar como temor, aflição, como dispositivo de ação/movimento e ato/realização. A atenção é afetada por uma hiperexcitação. Dinâmica psíquica muito comum, presente no sujeito quando está submetido a uma condição de isolamento social. O sujeito ansioso passa a dar mais atenção a tudo o que está ocorrendo no mundo, apresenta uma significativa sensibilidade a qualquer alteração que ocorre no entorno. Isso porque as alterações afetarão não só a forma como ele está agindo em relação ao mundo, mas também incidirão sob a forma como ele age consigo mesmo.
Existe também a ansiedade somática. É uma ansiedade cuja resposta se manifesta no corpo, em forma de desconforto. Exemplo disso é a irritação, as dores recorrentes, as sensações corporais de inadaptação. A pessoa tem a sensação de que há algo errado, mas não consegue dizer o que está acontecendo. É importante destacar que há muitas ansiedades somáticas que se transformam em derivativos para outras formas de adoecimento, que estão ligadas a estados crônicos de tratamento vinculados a outras patologias, como a alopecia, a psoríase e o vitiligo. O sujeito ansioso apresenta uma forma de funcionamento psíquico cuja estratégia “escolhida” para lidar com as manifestações somáticas é a esquiva. Significa dizer que há algo que causa medo e aflição que vem de fora e conecta com a angústia (afeto que faz parte da constituição psíquica de todo sujeito cuja origem surge de uma dinâmica psíquica interna). O que se apresenta tem a ver com o passado, com o que existe de mal resolvido, com histórias de desamor, complexos e etc. O que ocorre psiquicamente quando há o encontro entre as aflições e os medos? Um conflito interno se instala. O conflito é a fonte e origem de todos os sintomas conforme verificados nos manuais de psicopatologia. O conflito não tratado evolui para a depressão, para conversão histérica, para o transtorno obsessivo compulsivo, para as fobias, para afecções somáticas e outras. Como o sujeito ansioso tem dificuldades de encarar de frente os seus impasses, “opta” por evitar o conflito e acaba por produzir muitas formas de adoecimento. O quadro de ansiedade acaba sendo uma resposta do sujeito como consequência de colocar-se fora o conflito. Todavia, na relação entre ele próprio e o outro, ocorre a introjeção. De maneira tal que os afetos reais mobilizados pelas situações que ocorrem, na realidade, são constantemente transformados em outros afetos. O medo, o prazer, a alegria, por exemplo, são capturados como afeto, entretanto, uma parcela é transforma em ansiedade. Algumas pessoas apresentam estados recorrentes de insatisfação, é a chamada ansiedade expectante. Surge como um estado de tensão em relação a algo que está para acontecer. Nessa situação, qual a resposta psicológica do sujeito? A ansiedade causará novos sintomas.
Por outro lado, há também a ansiedade ligada ao fracasso dos sintomas. Quando não se tem a compreensão do que está acontecendo, a resposta se manifesta como uma ansiedade do tipo sinal. Surge como uma dica para o sujeito de que ele passou do limite. Há algo da ordem de uma intensidade de afeto. O psicanalista Christian Dunker interpreta que qualquer mal-estar é um problema de excesso ou de falta, em que há muita aceleração ou pouca aceleração. E como resolver isso? Aprendendo a dosar, refere o docente da USP, encontrando um meio termo no ajuste dos dois polos. Porém esses dois polos são indutores de ansiedade por estarem em contradição. Contradição simbólica, contradição real, contradição imaginária. É uma dinâmica que pede coisas diferentes do sujeito. Por isso o importante trabalho de promoção à saúde psicológica dos profissionais do campo psi para que o sujeito possa falar sobre sua ansiedade, seu sofrimento, seus medos. É a estratégia de intervenção ou método, chamado de escuta clínica.
Em atenção à lógica do capital ou da demanda do mercado que tem contribuído para o aumento dos estados de ansiedade, sabe-se que a vontade de cada um é de se sentir numa condição de pacificação, no controle das situações, na soberania sobre a própria vida, assim como responsável pelo próprio destino. Se bom ou ruim, é a ordem mundial que tem normatizado a vida humana nos dias de hoje. O fato é que a condição de vida em quarentena vem provocar uma nova forma de viver. Abre-se uma importante reflexão sobre as novas formas de produção, o que é possível se fazer e o como fazer nesse momento de importante limitação. Será preciso repensar a concepção de que o sujeito tem o controle sobre tudo e sobre as próprias expectativas de vida e por que não dizer, de morte também. Deixamos algumas questões para pensar sobre a nova ordem: qual é a expectativa de cada um daqui em diante? O que cada sujeito precisa fazer para que possa se sentir um sujeito do desejo? O que é preciso ser feito em favor da vida humana para que condições adversas, como a COVID-19, tenha efeitos psicológicos menos danosos à saúde mental?
Gratidão por estar viva!
Belém/PA, 03 de agosto de 2020.